Uma casa arruinada, oh, a mais bela casa. As casas nascem quando há duas pessoas no mesmo lugar, nada podia ser tão literal como a construção desta casa banal. Eu sempre gostei das ruínas das casas que nunca soube como manter. Remédio santo, que me transforme em pedras apenas agregadas para viver contigo mais um pouco. Enquanto esta casa tende, como tudo o resto, à horizontalidade, que me deleite no processo e que tenha enfim dois pés sobre o que é, magnificamente, meu.
E aí vai ela como uma louca atrás de cada seta perdida, obviamente muito mais velozes do que alguém com dois pés postos no chão. As setas que me foram roubadas ainda por cima, com a minha própria mistura dentro. Não, não corro para recuperar os meus pequenos bens. É bem verdade que fazem maravilhas com eles, mas eu não saberia voltar a ordená-los para o estéril milagre. Não sei se gostas da tua herança roubada, acho que ultimamente deitarás tudo na sarjeta para que se juntem às pedras cada vez mais abrasadas, pequenos seixos finalmente rolados no fundo do leito da nossa praia fluvial. Devolvido tudo enfim ao oceano, expelido filtrado, para que possas voltar a dormir ao relento como quem escolhe.